CANOLA - A grande fraudola (THE GREAT CON-OLA)

 

 

 (NT: con: entre outros significados: abusar da boa fé, trapacear, iludir. - ola: sufixo de significado impreciso encontrado em uma variedade de palavras de cunho comercial (Crayola; granola; Victrola) e variações jocosas de certas palavras (crapola))

 

Artigo de: Sally Fallon e Mary G. Enig, PhD

 

Óleo de canola é "amplamente reconhecido como o mais sadio óleo para salada e cozimento disponível para os consumidores”. Ele foi desenvolvido por hibridação da colza. O óleo de colza é tóxico porque contém quantidades significativas de uma substância perigosa chamada de ácido erúcico. O óleo de Canola contém somente traços de ácido erúcico e seu perfil peculiar de ácidos graxos, rico em ácido oléico e reduzido em gorduras saturados, o faz particularmente benéfico pela prevenção de doença do coração. Também contém quantidades significativas de ácidos graxos ômega - 3, que também têm mostrado serem benéficos à saúde. Isso é que a indústria alimentar afirma sobre o óleo de canola.

Óleo de Canola é uma substância venenosa, um óleo industrial que não pertence ao corpo. Contém "o infame agente do gás mostarda da guerra química”, hemaglutininas e glicosídeos tóxicos; causa a doença da vaca louca, cegueira, desordens nervosas, adesão de hemácias e depressão do sistema imunológico. Isso é o que falam os detratores do óleo de canola.

Como fica o consumidor para se situar entre as conflitantes afirmações a respeito desse produto? Seria o óleo de canola um sonho que virou realidade ou um veneno mortal? E por que a canola capturou um espaço tão marcante entre os óleos utilizados pelos alimentos processados?

HISTÓRIA OCULTA

Vamos começar com um pouco de história. O período de tempo é o meados da década de 1980 e a indústria alimentar está tendo um problema. Em coordenação com a Associação Americana do Coração (American Heart Association), com numerosas agências governamentais e com departamentos de nutrição das principais universidades, a indústria vinha promovendo os óleos poliinsaturados como uma alternativa saudável para o coração em relação às gorduras saturadas “obstruidoras de artérias”. Desafortunadamente, estava vez ficando mais claro que os poliinsaturados, particularmente o óleo de milho e o óleo de soja, causariam numerosos problemas de saúde, inclusive e especialmente o câncer.1

A indústria estava amarrada. Não poderia continuar utilizando quantidades grandes de óleos poliinsaturados líquidos e proclamarem seus saudáveis predicados face às evidências que acabariam por demonstrar seus perigos. Mas esses mesmos fabricantes não podiam retornar ao emprego tradicional e saudável de gorduras saturadas - manteiga, toicinho, banha, gordura de coco e óleo de palma - sem causar um alvoroço. Além disso, essas gorduras têm um alto custo para as implacáveis margens de lucro da indústria.

A solução foi abraçar o uso de óleos monoinsaturados, tal como o óleo de oliva (azeite). Estudos tinham mostrado que o óleo da azeitona tem um efeito “melhor” do que os óleos poliinsaturados nos níveis de colesterol e em outros parâmetros do sangue. Além disso, Ancel keys e outros promotores da idéia da dieta cardíaca (diet-heart Idea) tinham popularizado a noção que a dieta do Mediterrâneo - rico em azeite em conjunto com imagens de uma existência despreocupada sob o sol daquelas ilhas – protegeria contra a doença cardíaca e assegurava uma vida longa e saudável. 

O Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue (NHLBI) patrocinou o Primeiro Seminário sobre Monoinsaturados da Philadelphia. A reunião foi presidida por Scott Grundy, um prolífico escritor e apologista da noção de que o colesterol e as gorduras de origem animal causam doença do coração. Os representantes da indústria de óleo comestível, incluindo a Unilever, estavam presentes. O Segundo Seminário sobre Monoinsaturados tomou lugar em Bethesda, Maryland, no início de 1987. O dr. Grundy foi associado a Claude Lenfant, cabeça do NHLBI, e os oradores incluíam Fred Mattson, que tinha passado muitos anos na Proctor e Gamble, e o cientista Holandês Martign Katan, que mais tarde viria a publicar pesquisas que mostravam os problemas com os ácidos graxos “trans”. Nessa época os artigos que exaltavam as virtudes de óleo de oliva começavam a aparecer na imprensa popular. 

A promoção de óleo de oliva, que tem uma longa história de uso, pareceu soar mais cientificamente aceitável para o consumidor consciente de seus cuidados com a saúde do que a promoção dos óleos de milho e soja, que somente podiam ser extraídos sob modernos processos de pressão com aço inoxidável. O problema para a indústria é que não haveria azeite suficiente no mundo para atender suas necessidades. E, como a manteiga e outros gorduras tradicionais, o óleo da azeitona seria também bem mais caro para utilização em alimentos processados. A indústria precisaria de um óleo monoinsaturado menos dispendioso. 

O óleo de colza (Rapeseed oil) era um óleo monoinsaturado que tinha sido usado extensivamente em muitas partes do mundo, notavelmente na China, Japão e Índia. Contém quase 60% de ácidos graxos monoinsaturados (comparado aos quase 70 por cento do azeite). Desafortunadamente, quase dois terços dos ácidos graxos monoinsaturados da colza é ácido erúcico, um ácido graxo monoinsaturado com 22 carbonos, que está associado com a doença de Keshan, caracterizada por lesões fibróticas do coração. No final dos anos 70, com o uso de uma técnica de selecionamento genético que envolveu a separação de sementes 2, agricultores canadenses conceberam uma variedade de colza que  produzia um óleo monoinsaturado com reduzido teor de ácido erúcico (22 carbonos) e alto teor de ácido oléico (18 carbonos). 

Esse óleo novo era referido como óleo LEAR, (Low Erucic Acid Rapessed), mas estava entrando muito devagar nos EUA. Em 1986, a Cargill anunciava a venda de sementes do óleo LEAR para fazendeiros americanos, e promoveu seu processamento na sua unidade de Riverside, Dakota do Norte, mas os preços caíram demais e os fazendeiros se assustaram. 3

CRIANDO O MARKETING DO “LEAR”

Antes que óleo LEAR pudesse ser promovido como uma alternativa saudável aos óleos poliinsaturados, ele precisava de um novo nome. Nem "Rape” (estupro, em inglês) nem "Lear" poderiam evocar uma imagem saudável para a nova "Cinderela" das lavouras. Em 1978, a indústria firmou o termo "canola", para o "Óleo canadense" (Canadian Oil), uma vez que essa nova colza foi originada no Canadá. "Canola" também soava de forma semelhante a expressões positivas na língua inglesa: “can do” and “payola” – muito favoráveis na linguagem do jargão do marketing.  Entretanto, o nome novo não emplacou até o início da década de 90.

O desafio inicial para Conselho Canadense da Canola seria o fato de que a colza não tinha recebido o status de GRAS (Geralmente reconhecido como seguro) pelo FDA americano (Administração de Alimentos e Medicamentos, órgão que regula a liberação de alimentos e medicamentos nos EUA, NT.) Uma mudança na regulamentação seria necessária antes que a canola pudesse ser comercializada nos Estados Unidos. 4 Precisamente como isso aconteceu não foi revelado, mas o status de GRAS foi concedido em 1985, pelo qual, existe rumores, de que o governo Canadense teria gasto 50 milhões de dólares pela liberação.

Como a canola foi dirigida ao crescente número de consumidores preocupados com sua saúde, as técnicas de marketing teriam que ser mais sutis do que as técnicas de propaganda televisa dos “junk foods”. A indústria teria que administrar o manejo do perfeito casamento entre a ciência com o óleo canola – reduzido teor de gordura saturada e rico em monoinsaturados. Adicionalmente, o óleo de canola contém mais de 10% de ômega-3, a descoberta mais recente que os nutricionistas tinham estabelecido. A maioria dos americanos são deficientes em ômega-3, um ácido graxo que tinha sido demonstrado como benéfico para o coração e para o sistema imunológico. O desafio seria como comercializar este ácido graxo, um verdadeiro “sonho que virou realidade”, para os consumidores mais esclarecidos. 

O óleo Canola começou a aparecer nas receitas de livros de saúde afiados, como o de Andrew Weil e Barry Sears. A técnica foi exaltar as virtudes da dieta do Mediterrâneo e do azeite (de oliva) no texto, e então listar “óleo de oliva ou óleo de canola” nas receitas. Um informante na indústria da editoração nos disse que desde os anos 90 os maiores editores não iriam aceitar livros de receitas, se eles não incluíssem canola como ingrediente.

Em 1997, Harper Collins contratou a dra. Artemis Simopoulos para escrever um livro de receitas que caracterizasse os benefícios para a saúde do ômega-3. 5 A dra. Simopoulos era uma pediatra que tinha servido por nove anos como presidente do Comitê de Coordenação Nutricional do Instituto Nacional de Saúde antes de se tornar presidente do Centro de Genética, Nutrição e Saúde. Ela tinha publicado vários artigos sobre ômega-3, chamando atenção para seu desaparecimento dos alimentos em função da industrialização da agricultura. Seu artigo mais famoso foi publicado em 1992 no American Journal of Clinical Nutrition, onde comparou os níveis de ômega-3 em ovos de supermercado de galinhas criadas com milho com os ovos de galinhas livremente e com uma dieta variada. 6 Os ovos mais naturais continham vinte vezes mais ômega-3 do que os ovos de aviários comerciais.

Simopoulos publicou seu The Omega Plan (O Plano ômega) em 1998 e foi reeditado como The Omega Diet (A dieta ômega) em 1999. O livro discute as virtudes dos ácidos graxos monoinsaturados e do ômega - 3 na dieta do Mediterrâneo. 7 Uma vez que o óleo canola não processado  contém não apenas bastante ácidos graxos monoinsaturados, como também  uma quantidade significativa de ômega-3, ele aparecia na maior parte das receitas do livro. Simopoulos afirmava que a dieta do Mediterrâneo era reduzida na quantia de gordura saturada e recomendava carne magra e iogurte e leite desnatado como parte de sua alimentação.

A estratégia da indústria da canola - conferências científicas, promoção para consumidores diferenciados através de livros como The Omega Diet e de artigos em seções de saúde de jornais e revistas - obteve êxito. No final dos anos 90 a canola tinha voado alto, e não apenas nos EUA. Atualmente China, Japão, Europa, México, Bangladesh e Paquistão, todos compram quantidades significativas. A canola cresce bem em ambientes áridos tais como a Austrália e as planícies Canadenses, onde se tornou na principal lavoura econômica. É o óleo de escolha em mercados de alimentos saudáveis como o Fresh Fields (comidas integrais), e cresce como item de supermercado. É comumente utilizado em margarinas sendo amplamente recomendado para redução do colesterol. A canola hidrogenada é utilizada cada vez mais em frituras, especialmente em restaurantes.

Latas vazias de óleo de canola em um beco atrás de um restaurante chinês. Na China a banha de porco era tradicionalmente utilizada para frituras. 

PERIGOS EXAGERADOS

Artigos relacionados com os perigos do óleo de colza são rampantes na  Internet, a maior parte originado de um artigo, "Cegueira, doença da Vaca Louca Doença e o óleo Canola (Blindness, Mad Cow Disease and Canola Oil)" de John Thomas, que apareceu na revista Perceptions, de março/abril de 1996. Algumas das afirmações são burlescas. Embora a colza seja um membro família brassica ou mostarda, não é a fonte do gás mostarda usado na guerra química.

Glicosídeos ou glicosinolatos (compostos que produzem açúcar pela hidrólise) são encontrados na maior parte dos membros da família brassica, incluindo brócolis, couve, repolho e nas mostardas. Eles contêm enxofre (não arsênico), o que dá um aroma picante aos vegetais tipo as mostardas e as crucíferas. Estes compostos são goitrogênicos (provocador de bócio, na tireóide, NT.) e devem ser neutralizados pelo cozimento ou pela fermentação. Como os alimentos à base de colza têm altas taxas de glicosídeos, não poderia ser usados em quantidades grandes como ração para animais. Entretanto, os cultivadores da planta foram capazes de reduzir os glicosideos e o ácido erúcico do óleo de canola. 8 Isso resultou numa ração com baixo teor de glicosídeos  que  pode ser utilizado como um alimento animal. Na realidade, ração animal com canola é uma importante exportação canadense.

As hemaglutininas, substâncias que promovem a coagulação do sangue e que prejudica o crescimento, é encontrado na porção protéica da semente, embora vestígios podem aparecer no óleo. E o óleo de canola não foi o causa da epidemia da doença da vaca louca no Reino Unido 9, embora a alimentação com o óleo de canola possa tornar as reses mais suscetíveis a certas doenças. 

Como todas as gorduras e óleos, o óleo de colza tem usos industriais. Pode ser usado como um inseticida, um lubrificante, um combustível e no sabão, na borracha sintética e em tintas. Como o óleo de linhaça ou de amêndoas, pode ser usado utilizado para produção de vernizes. As gorduras tradicionais como a gordura de coco, o azeite e a banha também têm usos industriais, mas isso não as tornam perigosas para o consumo humano.

Há relatos de alergias à canola, e artigos da Internet descrevem uma variedade de sintomas - tremores, agitação, paralisias, falta de coordenação, fala arrastada, problemas de memória, visão borrada, problemas de micção, entorpecimento e formigamento nas extremidades, e arritmias cardíacas – que cessam com a descontinuação do uso da canola. Porém nada disso foi informado em jornais médicos. Escrevendo para o Washington Post, o professor Robert L. Wolke (www.professorscience.com) acusou os redatores desses artigos como divulgadores de “lendas urbanas histéricas sobre doenças bizarras”. 10 A indústria realmente lucra com tais precipitadas acusações, porque elas são equivocadas e são facilmente desmentidas.

Por outro lado, o consumidor TEM motivos para ser cauteloso a respeito do favorito óleo do establishment, cada vez mais utilizado em um maior número de produtos.

OS ESTUDOS

Diz Wolke: "Eu não encontrei nenhuma pesquisa indicando que o atual óleo canola com reduzida taxa de ácido erúcico, em distinção do óleo de colza, fosse prejudicial ao humano”. Isso é afirmado porque, apesar do óleo de canola ter o certificado GRAS, nenhum estudo de longo prazo em humanos foi realizado. Estudos em animais com óleo de colza com reduzido ácido erúcico foram realizados no início do desenvolvimento do óleo, e tem continuado no presente. Os resultados desafiam não somente as afirmações “saudáveis” do óleo de canola, mas também as bases teóricas que suportam a hipótese da dieta cardíaca. 

Os primeiros estudos publicados sobre o novo óleo foram desenvolvidos em 1978 com recursos de pesquisa da Unilever na Holanda.11 A indústria estava naturalmente interessada em  saber se o novo óleo LEAR causava lesões no coração de animais de laboratório. Em estudos iniciais, os animais alimentados com colza com altas taxas de ácido erúcico mostraram retardo de crescimento e mudanças indesejáveis em vários órgãos, especialmente o coração, uma descoberta que provocou a assim chamada “crise do ácido erúcico” o que impeliu os geneticistas da planta a desenvolver versões novas da semente. Os resultados do estudo LEAR foram confusos. Ratos geneticamente selecionados para estarem propensos à lesões cardíacas desenvolveram mais lesões com óleo LEAR e de linhaça, do que com azeite de oliva e óleo de girassol, o que conduziu os pesquisadores a refletir que o ômega-3 (não o ácido erúcico) dos óleos  LEAR e linhaça poderia ser o culpado. Mas os ratos geneticamente selecionados para estarem mais protegidos para lesões no coração não demonstraram nenhuma diferença significativa entre os quatro óleos testados e óleo LEAR não causou problemas do coração desses ratos, em contraste ao óleo com alta taxa de ácido erúcico que induziu à necrose cardíaca severa. 

Em 1979, os pesquisadores do Instituto Canadense para Ciência e Tecnologia da Alimentação associaram os resultados de 23 experiências envolvendo ratos de quatro laboratórios independentes. Todos estudavam os efeitos do óleo LEAR e de outros óleos na incidência de lesões do coração. Eles verificaram que as gorduras saturadas (ácidos palmítico e esteárico) foram protetores contra lesões ao coração, ao contrário, altos níveis de ômega-3 estavam correlacionados com níveis elevados de lesões. Eles verificaram uma fraca correlação entre lesões no coração e o ácido erúcico. 12

Em 1982, o mesmo grupo de pesquisa publicou um artigo que examinou a interação entre gorduras saturados com óleo LEAR e óleo de soja. Quando as gorduras saturadas na forma de manteiga de cacau foram adicionadas às dietas, os ratos em ambos os grupos tiveram melhor crescimento e uma significativa redução nas lesões do coração. Os autores afirmaram: “Estes resultados sustentam a hipótese de que as lesões miocárdicas em ratos machos são relacionadas ao equilíbrio dos ácidos graxos da dieta e não aos contaminantes cardiotóxicos dos óleos.” 13

Pesquisadores canadenses examinaram o óleo LEAR novamente em 1997. Eles verificaram que porcos alimentados com fórmulas de substituição ao leite contendo óleo de canola mostraram sinais de deficiência de vitamina E, mesmo se esse composto tivesse adequada suplementação daquela vitamina.14   Porcos alimentados com fórmulas baseadas em óleo de  soja em substituição ao leite, fortificados com a mesma quantidade de vitamina E não mostraram uma exigência adicional à vitamina E. A vitamina E protege as membranas das células contra danos provocados pelos radicais livres  e é vital para a saúde do sistema cardiovascular. Em um artigo de 1998, o mesmo grupo da pesquisa informou que os porcos alimentados com óleo de canola tinham sofrido uma diminuição na contagem de plaquetas e um aumento no tamanho das mesmas. 15 O tempo de sangria (uma prova de coagulação, NT.) foi mais longo nesses porcos alimentados com óleo canola e óleo de colza. Estas mudanças foram suavizadas pela adição de ácidos graxos saturados, seja com a manteiga de cacau ou com a gordura de coco sendo oferecida aos animais. Esses resultados foram confirmados em outro estudo um ano mais tarde. O óleo de Canola foi responsabilizado pela supressão do desenvolvimento normal da contagem das plaquetas. 16

Por último, estudos empreendidos nas Divisões de Pesquisa de Saúde e Toxicologia de Ottawa, Canadá, descobriu que ratos criados para terem pressão do sangue elevada e propensos ao acidente vascular cerebral têm uma expectativa de vida menor quando são alimentados com o óleo de canola sendo a única fonte de lipídios.17 Os resultados de um estudo posterior sugeriram que o culpado seria um composto esteróide do óleo, que “tornaria a membrana celular mais rígida” e contribuindo para o encurtamento da vida dos animais.18

Todos estes estudos apontam na mesma direção - que o óleo de canola definitivamente não é saudável ao sistema cardiovascular. Como o óleo de colza, seu predecessor, o óleo canola está associado com lesões fibróticas no coração. Também causa deficiência de vitamina E, mudanças indesejáveis nas plaquetas, e encurta a expectativa de vida de ratos (propensos ao derrame), quando esse óleo é a única fonte lipídica da dieta. Além disso, parece retardar o crescimento, o que faz com que o FDA não permita o uso de óleo de canola em fórmulas infantis.19 (Fórmulas infantis comerciais vendidas no Brasil, como o NAN®, da Nestlé, tem óleo de canola em sua composição, NT.) Quando gorduras saturados são adicionados à dieta, os efeitos indesejáveis de óleo canola são suavizados. O mais interessante de tudo está no fato de que muitos estudos mostram que os problemas com o óleo canola não são relacionados ao seu conteúdo de ácido erúcico, mas sim ao alto nível de ômega-3 e baixo nível de gorduras saturadas.

ÓLEO DE COLZA NAS DIETAS TRADICIONAIS

O óleo de Colza foi usado em China, Japão e Índia por milhares de anos. Em áreas onde existe uma deficiência de selênio, o uso de óleo de colza estava associado com uma alta incidência de lesões fibróticas no coração, nm quadro conhecido como doença de Keshan.20 Estudos com animais realizados nos últimos vinte anos sugerem que o emprego do  óleo de colza nas dietas humanas empobrecidas, sem o adequado fornecimento de gorduras saturadas como ghee (manteiga líquida), gordura de coco ou banha, seus efeitos nocivos são amplificados. Dentro do contexto de dietas tradicionais saudáveis que incluem gorduras saturadas, o óleo de colza, e o ácido erúcico em particular desse óleo, não representam um problema. De fato, o ácido erúcico é útil no tratamento da doença degenerativa conhecida como Adrenoleucodistrofia (ALD) e era o mágico ingrediente do “Óleo de Lorenzo” (ver filme “O Óleo de Lorenzo”, NT).

Os altos níveis de ácidos graxos tipo ômega-3, presentes no óleo de colza não processado, não parecem um problema quando a dieta é rica em ácidos graxos saturados. Um estudo de 1998 indica que dietas com adequadas quantias de gorduras saturadas ajudam o corpo a converter ômega-3 em longas cadeias de EPA e DHA, que o corpo produz a partir da maior parte dessas moléculas de 18 carbonos. 21 Essa conversão é reduzida entre 40-50 por cento nas dietas que tem falta de gorduras saturadas e excesso de ômega-6 dos óleos vegetais comerciais (particularmente o óleo de soja). Nos estudos com animais com óleo de canola, as gorduras saturadas da dieta suavizaram os efeitos prejudiciais do ômega-3.

Em 1995, um artigo no Wall Street Journal informou que o uso do óleo de colza na cozinha estava associado com taxas muito aumentadas de câncer pulmonar nas mulheres que respiravam seus vapores.22 Uma vez mais, a falta de gordura saturada na dieta explica essa associação, uma vez que os pulmões não podem funcionar adequadamente sem adequadas taxas de gorduras saturadas.23 Na Índia, o óleo de colza foi usado como um óleo de cozinha por milhares de anos, mas somente recentemente as donas de casas indianas tem sido levadas à convicção de que as saturadas manteiga e a ghee (manteiga líquida) deveriam ser evitadas. Muitas delas, agora, usam “vanispati”, uma imitação de ghee feita de óleo de soja parcialmente hidrogenado.

PROCESSAMENTO

A colza foi utilizada como uma fonte de óleo desde tempos antigos porque é facilmente extraída da semente. De forma interessante, as sementes, primeiro eram cozidas, para depois se extrair o óleo. Na China e na Índia, o óleo de colza era fornecido por milhares de mascateiros que operavam pequenas pedras de pressão em temperaturas baixas para obter o óleo. O que esse negociante vende para as donas de casa é absolutamente fresco.

O moderno processamento de óleo comestível é uma coisa completamente diferente. O óleo é removido por uma combinação entre pressão mecânica sob altas temperaturas e o uso de solventes de extração. Vestígios do solvente (usualmente hexano) permanecem no óleo, mesmo depois de considerável refinamento. Como todos os óleos vegetais modernos, o óleo canola passa pelo processo de cáustico refinamento, branqueamento e degumming (retirada de substâncias gelatinosas, gomas, solúveis em água, gelatinosas quando úmidas, mas duras quando secas, presente em vários vegetais, NT)  – todas as etapas envolvem altas temperaturas ou produtos químicos de segurança questionável. Como o óleo de canola tem altas taxas de ômega - 3, facilmente se torna rançoso e fica com cheiro ruim quando exposto ao oxigênio e às temperaturas altas, ele precisa ser desodorizado. O processo de desinfecção padrão remove uma grande porção de ômega-3 os transformando em ácidos graxos trans. Embora o governo canadense catalogue o conteúdo de trans da canola num mínimo de 0,2 por cento, pesquisas da Universidade da Florida em Gainesville, encontraram níveis elevados de trans, em torno de 4,6 por cento no óleo comercial líquido. 24 O consumidor não tem nenhuma idéia sobre a presença de ácidos graxos trans no óleo de canola porque esse conteúdo não está demonstrado no rótulo.

Uma grande parte do óleo de canola utilizado nos alimentos processados foi “endurecida” através do processo de hidrogenação, o que introduz altos níveis de ácidos graxos trans no produto final, algo em torno de 40%.25 De fato, os hidrogenados do óleo canola são muito atrativos, pois são melhores que os óleos de milho e de soja, uma vez que os modernos métodos de hidrogenação tem ação preferencial sobre o ômega – 3, e o óleo de canola é rico em ômega - 3. Esses níveis mais altos trans significam vida mais longa para esses alimentos processados nas prateleiras, uma textura crocante nos biscoitos e nas bolachas - e mais riscos de doença crônica ao consumidor.26


 Gráfico do processamento dos óleos vegetais alimentares


O MITO DOS MONOINSATURADOS

A aceitação pelo consumidor do óleo de canola representa uma entre uma série de vitórias da indústria de alimentos processados, cuja meta é a substituição de todos os alimentos tradicionais pelos alimentos de imitação, originados a partir de produtos derivados da soja, do milho, do trigo, e outras sementes oleaginosas. O óleo de canola veio a salvar a indústria uma vez que a promoção de óleos poliinsaturados, como soja e milho, foi se tornando cada vez mais insustentável. Os cientistas poderiam endossar o óleo canola com boa intenção, como se fosse um óleo saudável para o coração, com suas reduzidas taxas de gordura saturada, com suas altas taxas de monoinsaturados e por ser uma boa fonte de ômega-3.

Mas a maior parte do ômega–3 do óleo de canola é transformado em gorduras trans durante o processo de desodorização; e pesquisas continuam a provar que a gordura saturada é necessária e altamente protetora.

Pelo menos poderia ser dito que o óleo de canola é uma boa fonte de gordura monoinsaturadas – como o azeite de oliva - e por isso não prejudicial. . . Ou não? Obviamente os ácidos graxos monoinsaturados não são prejudiciais em quantidades moderadas, dentro do contexto de uma dieta tradicional, mas como seria dentro do contexto da dieta moderna, onde a comunidade preocupada com sua saúde está confiando às gorduras monoinsaturados, uma exclusiva fonte de lipídeos? Existem indicações de que as gorduras monoinsaturados em excesso, ao serem a principal fonte de gordura alimentar, podem ser um problema. O excesso de ácido oléico (o tipo de ácido graxo monoinsaturado do azeite e do óleo canola) cria desequilíbrio a nível celular que pode inibir a produção de prostaglandinas.27 Em um estudo, o consumo excessivo de gordura monoinsaturadas estaria associado com um risco aumentado de câncer de mama.28

Mesmo o dogma de que os ácidos graxos monoinsaturados fazem bem ao coração está sob questionamento. De acordo com um estudo de 1998, ratos alimentados com uma dieta contendo gorduras monoinsaturados tiveram maior probabilidade de desenvolver arteriosclerose do que os ratos alimentados com uma dieta contendo gordura saturada. 29 De fato, os ratos alimentados com gorduras monoinsaturados pareceram mais propensos às doenças de coração do que aqueles alimentados com ácidos graxos poliinsaturados.

Isso significa que o tipo de dieta recomendada em livros como The Omega Diet (A Dieta ômega) - com reduzidas taxas de saturados protetores, ancorada em altos níveis de ômega - 3 e nos ácidos graxos monoinsaturados, seja como azeite de oliva ou óleo de canola, como fonte da maioria de calorias provenientes de gorduras – pode, realmente, contribuir para a doença do coração. Tais dietas foram apresentadas com um grande ardil de marketing, mas nós precisamos reconhecê-los pelo que realmente eles são  - uma “payola” (jabá) pela indústria alimentar e uma “fraudola” (“con-ola” ) para o público.   

 

Sobre as autoras:  

Mary G. Enig, PhD é a autora de  “Know Your Fats: The Complete Primer for Understanding the Nutrition of Fats, Oils, and Cholesterol, Bethesda Press, maio, 2000. Peça sua cópia no site: www.enig.com/trans.html.

Sally Fallon é a autora de Nourishing Traditions: The Cookbook that Challenges Politically Correct Nutrition and the Diet Dictocrats, e “Eat Fat, Lose Fat” (juntamente com M. Enig, PhD), além de um grande número de artigos sobre dietas e saúdes. Ela é a presidente da Weston A. Price Foundation e fundadora da campnah pelo leite bruto integral (A Campaign for Real Milk). Ela é a mãe de quatro crianças saudáveis nutridas com alimentos integrais como manteiga, nata, ovos e carne.


Referências  

1.             MG Enig and SW Fallon. The Oiling of America.

2.             RK Downey. Genetic Control of Fatty Acid Biosnythesis in Rapeseed. Journal of the American Oil Chemists Society, 1964;41:475-478.

3.             Journal of the American Oil Chemists' Society, December 1986;63(12):1510.

4.             Canola - a new oilseed from Canada. Journal of the American Oil Chemists' Society, September 1981:723A-9A.

5.             The amount of the advance was $350,000. Personal email communication, Jo Robinson, co-author of The Omega Diet.

6.             AP Simopoulos and N Salem, Jr. Egg yolk as a source of long-chain polyunsaturated fatty acids in infant feeding. American Journal of Clinical Nutrition, 1992;55

7.             AP Simopoulos and J Robinson. The Omega Plan. Harper Collins Publishers, New York, NY, 1998.

8.             Canola - a new oilseed fromCanada. Journal of the American Oil Chemists' Society, September 1981:723A-9A.

9.             M Purdey. Educating Rida. Wise Traditions, Spring 2002;3(1):11-18.

10.          When we contacted Dr. Wolke to provide him with evidence of canola dangers, he was dismissive.

11.          RO Vles and others. Nutritional Evaluation of Low-Erucic-Acid Rapeseed Oils. Toxicological Aspects of Food Safety, Archives of Toxicology, Supplement 1, 1978:23-32

12.          HL Trenholm and others. An Evaluation of the Relationship of Deitary Fatty Acids to Incidence of Myocardial Lesions in Male Rats. Canadian Institute of Food Science Technology Journal, October 1979;12(4):189-193

13.          JKG Kramer and others. Reduction of Myocardial Necrosis in Male Albino Rats by Manipulation of Dietary Fatty Acid Levels. Lipids, 1982;17(5):372-382.

14.          FD Sauer and others. Additional vitamin E required in milk replacer diets that contain canola oil. Nutrition Research, 1997;17(2):259-269.

15.          JK Kramer and others. Hematological and lipid changes in newborn piglets fed milk-replacer diets containing erucic acid. Lipids, January 1998;33(1):1-10.

16.          SM Iunis and RA Dyer. Dietary canola oil alters hematological indices and blood lipids in neonatal piglets fed formula. Journal of Nutrition, July 1999;129(7):1261-8.

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27.          Horrobin, David F, Prostaglandins: Physiology, Pharmacology and Clinical Significance, The Book Press, Brattleboro, Vermont, 1978, p 20, 35

28.          V Pala and others. Erythrocyte membrane fatty acids and subsequent breast cancer: a prospective Italian study. Journal of the National Cancer Institute, July 18, 2001;93(14):1088-95.

29.          LL Rudel and others. Dietary monounsaturated fatty acids promote aortic atherosclerosis in LDL-receptor-null, human ApoB100-overexpressing transgenic mice. Arteriosclerosis, Thrombosis and Vascular Biology, November 1998;18(11):1818-27.


O texto original está no link: http://www.westonaprice.org/knowyourfats/conola.html

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