UM LOBO EM PELE DE CORDEIRO

 

A pesquisa em nutrição deve superar a metodologia pseudo científica e os interesses particulares para realizar progressos na luta contra a obesidade

 

Artigo de Edward Archer, de 22 de outubro de 2013,

para The Scientist.

Recentemente, eu fui o autor principal de um artigo que demonstrou que, após  40 anos e muitos milhões de dólares, a base de dados obtidos pelas avaliações nutricionais nos EUA foram inexoravelmente inúteis. Dentro dos domínios da pesquisa, certas constatações parecem ser formidáveis, contudo  na epidemiologia nutricional - o estudo do impacto da dieta sobre a saúde, (que será referida a seguir simplesmente como "nutrição"), estes resultados não passam de banalidades. Na verdade, há um grande corpo de evidências demonstrando que o sistemático erro nos relatos de ingestão de energia e de macronutrientes tornou os resultados e conclusões da grande maioria dos estudos em nutrição, financiados pelo governo federal,  inválidos.

Então, o que está acontecendo? É esse tipo de pesquisa mera pseudociência? E se assim for, como é que o governo federal continua a gastar bilhões de dólares dos contribuintes em estudos que não estão resultando em qualquer progresso demonstrável na luta da nossa nação contra a obesidade e diabetes?

Podemos estar testemunhando a confluência de dois componentes inerentes à condição humana: incompetência e interesses pessoais. A pesquisa em nutrição teve inúmeros fracassos colossais e dispendiosos. A lista de componentes dietéticos alegados para reduzir a doença cardiovascular (DCV), prevenir o declínio cognitivo , e / ou combater o câncer que mais tarde foram refutados por meio de ensaios clínicos é extensa. E, embora a natureza de auto-correção da ciência necessita de fracasso, a grande maioria das falhas da nutrição foram engendradas por uma completa falta de familiaridade com o método científico. Essa inaptidão é mais óbvia na confiança desse campo de pesquisas nos auto-relatos de hábitos alimentares. Tais informações, as quais os pesquisadores em nutrição atribuem valores calóricos numéricos, é repleto de preconceito, e sem a capacidade de corroborar ou invalidar os relatórios, tais dados devem ser considerados pseudocientíficos - fora da esfera da investigação científica.

 Além disso, a pesquisa em nutrição não consegue controlar aspectos bem conhecidos, suportados de forma empírica, e em muitos casos óbvios fatores deconfusão. Por exemplo, a Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) e Organização Mundial da Saúde (OMS) determinaram repetidamente que as necessidades humanas de energia dos alimentos devem ser estimadas utilizando o gasto energético total diário, onde a atividade física e o gasto energético basal são os principais determinantes dessa taxa. No entanto, as pesquisas de nutrição raramente medem qualquer forma de gasto energético ou quantifica a atividade física. Este fracasso levou a uma infinidade de resultados que são sugestivos de explicações múltiplas e muitas vezes divergentes, ofuscando assim o exame das relações dieta - saúde. Em nenhum lugar este fato fica mais evidente do que a incapacidade dessa área de responder a uma pergunta simples : O que devemos comer?

A responsabilidade por este infeliz estado de coisas repousa inequivocamente sobre os líderes de pesquisas em nutrição. Ao invés da formação dos estudantes de pós-graduação pelo método científico, e permitindo que sua pesquisa atenda às necessidades da sociedade, os líderes desse campo escolhem treinar seus pupilos para servir apenas as suas próprias necessidades profissionais, ou seja, para obter financiamento e publicação de suas pesquisas. Eu experimentei essas práticas pessoalmente quando fiz a transição de estudante para pesquisador assistente de pós-graduação e para pesquisador em parceria (research fellow), quando os colegas continuam a enfatizar que é assim que deve ser, para que eles não deixem de obter financiamento e "alimentar" os seus alunos de pós-graduação e familiares. Mas por não treinar mentes nos fundamentos da ciência e do ceticismo, o campo da nutrição tem promovido o uso de medidas que são tão profundamente dissonantes com os princípios científicos que eles nunca irão produzir uma conclusão definitiva. Com efeito, agora temos várias gerações de pesquisadores de nutrição que dominam a pesquisa federal em nutrição e do “peer review” desse trabalho, mas que não têm as habilidades do pensamento crítico necessárias para criticar ou realizar uma sólida investigação científica.

O evidente auto-interesse que está conduzindo a pesquisa neste campo não se limita a levantar alunos para apenas seguirem o rebanho. Os dados subjetivos gerados por estudos de nutrição mal formulados são também o veículo perfeito para perpetuar um ciclo interminável de descobertas ambíguas que levam cada vez a mais financiamento federal. Os Institutos Nacionais de Saúde gastaram cerca de 2,2 bilhões dólares em pesquisa de nutrição e obesidade no ano fiscal de 2012, sendo uma significativa proporção do que foi gasto em pesquisa utilizou os métodos pseudocientíficos descritos anteriormente. O fato de que os pesquisadores em nutrição já sabem há décadas que essas técnicas são inválidas implicam no reconhecimento de que esse campo vem cometendo uma fraude contra os contribuintes norte-americanos há mais de 40 anos, muito maior do que qualquer fraude perpetrada no setor privado (por exemplo, os escândalos da Enron e da Madoff).

Quando a retórica anti-ciência ocorre em um conselho escolar no Kansas lutando pelo criacionismo, podemos acenar com cabeças educadas sob um entreternimento silencioso, mas se várias gerações de pesquisadores de nutrição têm sido treinados para ignorar evidências em contrário, para continuar a escrever e receber subvenções, e manter a publicação de resultados ilusórios, a comunidade científica como um todo tem um grande problema de credibilidade. Talvez mais importante, ao desperdiçar finitos recursos de pesquisa em saúde em métodos pseudo-quantitativos e em seguida, tentar basear a política de saúde pública sobre esses "dados" anedóticos não é apenas inútil, é deliberadamente fraudulento.

A solução para este dilema é bastante simples: as agências de financiamento devem parar de financiar pesquisas de nutrição inconsistentes, e os editores de revistas de nutrição precisam parar de publicar esses resultados. Dada a imensa quantidade de dinheiro investido neste campo a cada ano, esse objetivo é muito mais fácil para o Estado do que um esforço de aperfeiçoamento. No entanto, a saúde da nossa nação depende da pesquisa em nutrição encontrar um cientista que possa dispersar os lobos e levar o rebanho dos excessivamente crédulos em nutrição para pastagens mais produtivas e políticas de saúde pública apoiadas empiricamente.

 Edward Archer é um pesquisador na Escola Arnold de Saúde Pública da Universidade da Carolina do Sul . Recentemente, ele foi co-autor de um artigo PLoS One sobre este tema.

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Artigo UOV10122013