Geração Prozac

 Um filme disponível em vídeo que vale a pena ver é “Geração Prozac”. É baseado num best-seller americano de Elizabeth Wurtzel, “Prozac Nation”.

O filme é um drama psicológico que mostra de forma elementar a história da crise depressiva da autora, ao iniciar seu curso universitário em Harvard. Em um certo momento, sua terapeuta resolve iniciar o uso do famoso remédio do laboratório Eli-Lilly, o Prozac ®. Naquela época os terapeutas pensavam em medicamentos para depressão em um momento posterior ao início da terapia. Nos final dos anos 80, um antidepressivo era sugerido se a evolução terapêutica parecesse insatisfatória. Hoje as pessoas tomam remédios e poucos fazem terapia, num curioso sinal dos tempos.

O mais interessante é que a personagem central vive um drama relativamente comum. Tem os pais divorciados quando tinha pouca idade, e cresce sob a proteção da mãe, que colocou em cima dela uma expectativa de cumprir um sucesso que não seria o próprio.

Num momento em que as drogas e o sexo fácil ganham um espaço espetacular sobre uma juventude de famílias fraturadas,  ávidas por momentos de vida que lhes roube, nem que seja por poucos momentos a sensação de vazio existencial e absoluta carência de vivências gratificantes de amor e dignidade humana, o drama de Elizabeth não encontra ao seu redor elementos que a auxiliem a superar a fragilidade de sua formação psicológica.

Um pai que se separa e se torna um abandonador, uma figura super comum na nossa sociedade, e uma mãe frágil, que abdica de encontrar um novo amor, para viver sua vida em cima de sua filha, outra óbvia caricatura social. Temos assim que os dois  adultos mais significativos para um filho recusam-se, por suas questões, a erguer um indivíduo que tenha recursos para viver sua vida em busca de alcances mais nobres do que a mera necessidade de suprir uma fome desesperadora e  mortal de reconhecimento e amparo.

O sexo pelo carinho, a droga pela vida, trocas que foram se amplificando nas últimas décadas. A sociedade tenta reparar colocando em cena suas drogas oficiais e seus traficantes credenciados. A comparação de Wurtzel não pode ser aceita pela maioria daqueles que validam a qualquer custo os padrões sociais de terapêutica nestes últimos anos.

Quando se avolumam os relatos dos graves efeitos colaterais dos medicamentos antidepressivos, uma vez que boa parte deles precisam de anos para aparecer, como por exemplo, a incurável discinesia tardia, (entre outras doenças do movimento como o parkinsonismo ou a síndrome neuroléptica fatal, além de poder causar graves problemas em recém nascidos das mães usuárias, ou aumentar o risco de câncer de mama, entre dezenas de outros problemas reconhecidos na literatura mundial) e como esses medicamentos ainda são considerados o melhor que a sociedade oferece aos seus “deprimidos”, cabe nunca esquecer, que ao contrário do que muitos possam acreditar, não é por falta de Prozac ou qualquer medicamento que caímos em depressão.

Mas frente à incapacidade de criarmos um mundo melhor, a partir de posturas humanas mais dignificantes, mais amorosas, que pudessem construir indivíduos mais inteiros; dezenas de milhões de pessoas usam remédios para alcançarem uma felicidade que suas miseráveis existências por si não lhes presentearão.

Porém, se não esquecermos que na melhor das hipóteses um medicamento poderá ser um degrau para um andar mais elevado, ou uma ferramenta para construir-se uma nova etapa de vida, um caminho de mudança ainda será possível.

Uma droga jamais será a solução final. Jamais levará ninguém aos seus altos fins existenciais.

(Filme: “Geração Prozac – Prozac Nation”, 2003, com  Chritina Ricci, Jessica Lange, Jason Biggs, Anne Heche, dirigido por Erik Skjoldbjaerg, baseado no Livro de Elizabeth Wurtzel, adaptado por Galt Niederhoffer)

 Sobre efeitos de antidepressivos veja o site: http://www.antidepressantsfacts.com/prozac-ADF.htm, dentre inúmeros.

 (José Carlos Brasil Peixoto 030405)

 

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