CONTROVÉRSIA SOBRE A CANOLA

 

 

Há pouco mais de três anos atrás, um artigo sobre as gorduras não saia da minha mesa. Tinha coletado na Internet. Os sites que mais me interessam sempre tocam sobre temas controversos, que habitualmente não são nem mesmo cogitados nos meios técnicos onde circulo, e muito menos na mídia. As autoras Mary Enig e Sally Fallon são reconhecidas por suas pesquisas e material publicado em jornais, revistas e nos livros que publicaram.

Um dos temas que mais intrigaram nesse extenso artigo (Know your fats – Conheça suas gorduras) dizia respeito ao tema óleo de canola. Mas quando fui atrás de mais informações na Internet é que fiquei mais admirado. Havia muito mais controvérsia do que parecia num primeiro momento.

Uma das coisas mais apaixonantes da pesquisa na Internet é descobrir a liberdade de expressão que efetivamente acontece me países de língua estrangeira.

Tenho a forte impressão de que no Brasil levantar temas controversos é tão politicamente incorreto que o melhor é não falar nada. Existem forças repressoras que costumam ter a boa fachada de serem representantes de intuições universitárias, órgão de pesquisas públicos ligados a órgãos governamentais, ou de outros institutos particulares.

Na primeira versão do artigo anterior sobre a canola (*), nenhum dado, obviamente foi criado pela imaginação do autor.  A maior parte veio de autores que continuo reputando serem de ótimo gabarito e responsabilidade, além de conteúdos obtidos da leitura de uma grande quantidade de outros artigos.

Mas como o texto está sendo amplamente divulgado creio que cabe então fazer algumas correções para tornar o assunto mais fidedigno com o leque de informações disponíveis nesse momento. Assim o artigo foi modificado.

Cabe porém, estender um pouco essa discussão.

 

SOBRE O NOME CANOLA E SUA DEFINIÇÃO

 

Em primeiro lugar, a questão do nome. O termo canola foi citado como Canadian oil no primeiro texto, baseado no artigo sobre o mesmo tema: “The Great Con-ola”, publicado na revista Nexus de setembro de 2002, e divulgada no site da Fundação Weston Price (uma instituição que não visa o lucro que divulga o que eles entendem serem “Sábias Tradições”). Esse artigo continua disponível no site do Dr. Mercola, reconhecido crítico de temas da saúde nos EUA. Pelo que pode ver agora o termo Canola é um pouco mais extenso: CANadian Oil, Low Acid. Ou seja, o nome continua sendo Óleo canadense, com a observação: low acid: ou seja, com pouco ácido. O ácido em questão é de fato o ácido erúcico. O ácido erúcico da canola está em taxas consideradas saudáveis pelos fabricantes e pelos agentes de saúde e de produção alimentar: até 2%.

Segundo o site oficial da Associação de cultivadores de canola do norte (NCGA), a canola é uma variação genética desenvolvida por plantadores canadenses no inicio dos anos 60. Mas teria sido em 1974, que um pesquisador da Universidade de Manitoba (Província canadense) desenvolveu a variedade com as taxas duplamente baixas de ácido erúcico e glucosinolato necessárias para liberar a produção e o consumo.

Essa busca por variações de rapessed (semente de colza, colza,) parece que vinha sido perseguida há algum tempo pelos agricultores canadenses. De acordo com a wikipedia em inglês, os agricultores canadenses já tinham tentado colocar no mercado um óleo com fins comestíveis no final dos anos 50, (entre 56 e 57), mas com características inaceitáveis para consumo. As variações mais resistentes à seca e as doenças teriam sido obtidas a partir de 1998 com técnicas de manipulação genética.

O conselho canadense da canola tem uma definição para a planta ter essa denominação: é um óleo que tem que ter menos de 2% de ácido erúcico, e o conteúdo sólido da semente deve ter menos do que 30 micromoles de uma ou qualquer mistura de 3-butenil glucosinolato, 4-pentenil glucosinolato, 2-hidroxi-3 butenil glucosinolato, 4 pentenil glucosinolato por grama seca, sólido não oleoso.

A planta teria sido introduzida no Brasil a partir do RS, em 1974. A planta é uma variação da Brassica napus (inclui a colza), obtida por melhoramentos genéticos. Mas a denominação - canola - foi realmente patenteada durante uma boa parte do período em que havia sua plantação no Brasil.

Até 1986 o nome Canola seria uma denominação patenteada no Canadá. A canola seria um marca registrada pelos membros da Wertern Canadian Oilseed Crushers Association, desde 1978 e o direito do termo foi passado em 1980 para a Rapessed Association of Canadá, mais tarde Canola Council of Canadá.

Segundo Mark Israel (ver referências) o nome original era Canadian Oil mesmo, e inicialmente não significava qualquer acrônimo. Em 1999 o Codex Alimentarious reconheceu o nome canola como um nome comum das plantas brassica que tivessem os predicados citados anteriormente com relação à composição de ácido erúcico e demais componentes.

 

A QUESTÃO DOS TRANSGÊNICOS

 

Bem, nesse ponto podemos já ter uma certeza, de fato no início da produção não havia nenhuma possibilidade de ser uma semente transgênica. Mas algo deve ter acontecido ao longo desse curto espaço de tempo, pois o tema canola em várias pesquisas pela Internet traz essa questão à tona. Ou será que existe uma má vontade deliberada de tantos articulistas associarem a questão da canola com as sementes geneticamente alteradas? É possível afirmar com plena convicção de que não há a presença de contaminação por sementes alteradas geneticamente no Brasil, se paises como o próprio Canadá, e os Estados Unidos parecem bastante preocupados com essa questão. (Ver artigo da associação de consumidores orgânicos – OCA)

Como foi que o Rio Grande do Sul se transformou num grande plantador de sementes transgênicas da soja? Houve compra regular com nota fiscal e pagamentos dos royalties? Ou de repente nos vimos obrigados a aceitar um fato consumado. O que movimenta o agro-negócio segue os ditames econômicos habituais pelo que se sabe.

Embora exista legislação que obrigue os produtores e fabricantes de alimentos a colocarem no rótulo a advertência de terem ou não insumos transgênicos, será que é possível ter confiança plena que isso é realmente cumprido? Torço para que seja.

Mas vamos então assumir que a canola que é colocada para consumo da população não seja transgênica. De qualquer forma é fruto da formidável capacidade dos produtores de conseguirem fazer surgir uma plana capaz de fornecer um formidável óleo, que ao contrário das demais plantas que tradicionalmente geram óleos alimentares, não era referida nas enciclopédias, como a Barsa de 1999. O fato de não aparecer nas enciclopédias é uma forma de mostrar como seria difícil para pessoas comuns encontrarem mais dados sobre essa semente.

Os donos do conhecimento talvez julguem isso desnecessário. Se um sábio garante que é bom, para que mais curiosidade?

Talvez existam bons motivos para que se demonstre indignação quando se discute esses assuntos.

 

CONTROVÉRSIAS SOBRE A QUALIDADE DOS LIPÍDIOS VEGETAIS

 

As impressões das nutricionistas Enig e Fallon não são entusiásticas sobre os óleos vegetais de um modo geral e da canola em particular.

Algumas discussões são muito complexas para o grande público. Em princípio os óleos vegetais são retirados das sementes, em ambiente industrial, sob grandes temperaturas (aprox 250 graus) e por grande pressão (que gera ainda mais calor). O calor é considerado pelas nutricionistas (e por outros autores) como um agente que modifica as qualidades das longas moléculas de ácido graxo desses óleos, o que faz gerar compostos como os radicais livres, que gozam de péssima reputação quanto à capacidade de trazer inúmeros tipos de prejuízos à nossa saúde. Há referências de pesquisas que informam que na produção da canola já se formem pelo menos 4,6% de ácidos graxos tipo trans (ver referências), mesmo antes de um futuro processo de hidrogenação, que certamente formará ainda mais isômeros trans.

Então, pelo se entende, esses óleos, pelo seu modelo de produção já podem ser considerados como produtos arriscados para a saúde do organismo. Isso pode piorado no processo de desodorificação do óleo industrializado. O óleo de oliva extra virgem com prensagem a frio, não submete a planta ao calor, pois sua extração é feita com suave compressão por pedras ou rolos de aço inox. Por isso esse produto têm a boa imagem que tem!

Outro aspecto importante é o que diz respeito às quantias de gordura saturada, monoinsaturada e poliinsaturada. Embora seja convencionado que a boa política lipídica seja de menos gordura saturada nos produtos alimentares, há bons motivos para se crer que essa não seja toda a verdade. Eu, particularmente, já estou mais convencido de que esses interessantes estudos que apontam para o contrário do senso comum sejam mais razoáveis do que as habituais conclusões que a maioria aceita de forma pacífica como a plenitude da verdade.

Quem sabe não seja mais prudente, pelo menos considerar que não há uma absoluta concordância com o tema gordura saturada x insaturada nos diversos âmbitos de pesquisa. Eu particularmente gosto dos textos de Uffe Ravnskov, que tem um amplo material a respeito dos enganos do colesterol e de Ron Rosedale, que tem ótimos textos sobe esse tema.

Resta ainda falar a respeito das gorduras trans produzidas pelo processo de hidrogenação de todas as gorduras poliinsaturadas de origem vegetal, e usadas largamente na indústria alimentar. A canola naturalmente é apenas mais um dos personagens dessa história. Hoje está mais divulgado o problema dos produtos hidrogenados. Por muitos anos foi passado para as pessoas que elas deveriam consumir produtos industrializados de origem vegetal em substituição às gorduras tradicionais. Os defensores eram firmes e assustadores ao convenceram por décadas milhões de pessoas a consumirem um produto que, ao final das contas, pode deteriorar a saúde das pessoas. Esses mesmos defensores seguem agora dizendo que a indústria continua sendo salvadora, pois, agora tem produtos com óleos interesterificados. Os consumidores têm naturalmente que acreditar na boa intenção desses produtores? O século XX foi rico de empreendimentos generosos em boas intenções, com excelentes idéias que trouxeram incontáveis resultados daninhos.

O site umaoutravisao continuará a trazer artigos sobre esse assunto em particular.

 

OUTRAS CONTROVÉRSIAS

 

O tema canola pode servir para mostrar que o que parece ser um mero rostinho bonito para o consumidor, tem no seu trajeto um caminho minado por controvérsias.

Sobre como o FDA – o órgão que regula a liberação de drogas e alimentos – agiu em relação à regulamentação da canola existe muitas referências citadas por autores respeitáveis, mas realmente esse tópico deve ficar como uma interrogação. Se o governo da Canadá gastou uma boa quantia de dinheiro para estimular a regulamentação da nova variação de colza que tinha sido obtida nas pesquisas canadenses, para poder propor a exportação de sementes e produtos derivados, creio nunca conheceremos a verdade. Esse tipo de dúvida é originado no singelo fato de que as ações comerciais de grande monta podem levar as pessoas comuns a terem desconfianças sobre a lisura de todo o processo. Talvez isso seja loucura popular...

No final das contas fico com a desagradável sensação de que existe um grande desejo de que esse tipo de questão não venha a público. Que não haja discussão sobre esses temas. Que a gente descubra que as coisas deram erradas depois que o establishment cientifico descobrir e permitir que os demais compartilhassem tais informações.

Lamentavelmente, informações polêmicas, mesmo sobre assuntos comuns, não são muito divulgadas em português.

O muiti-secular ovo foi recentemente, e ficou por anos demonificado, mas agora foi devolvido ao seu status de alimento tradicional e saudável. Se a canola for uma solução real para nossa saúde isso certamente se tornará impositivo com o tempo. Se há questões obscuras a seu respeito, que sejam esclarecidas. 

Em todo o caso, que se permita à plena discussão desse e qualquer outro assunto pertinente à saúde, às tradições alimentares, e a qualquer outro tema de interesse público.

 

José C B Peixoto

 

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Referências:

 

http://www.canola-council.org/ind_definition.html

http://northerncanola.com/canolainfo/history.asp

http://www.mercola.com/2002/aug/14/con_ola1.htm

http://www.mercola.com/2002/aug/17/saturated_fat1.htm

http://www.planetark.com/dailynewsstory.cfm/newsid/22745/story.htm (sobre o percentual de plantações transgênicas no Canadá)

http://www.organicconsumers.org/ge/canola061505.cfm (sobre o problema da contaminação de plantações convencionais pelas variantes transgências)

http://www.westonaprice.org/knowyourfats/conola.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Brassica (espécies do gêenero brassica)

http://organicconsumers.org/ge/canola061505.cfm (sobre a preocupação global com a contaminação de canola OGM);

http://percyschmeiser.com (sobre as questões entre um produtor canadense e a Monsanto)

http://www.dldewey.com/hydroil.htm (revisão de tópicos a respeito da Canola e o percentual de gorduras trans)

http://alt-usage-english.org/excerpts/fxcanola.html (Mark Israel fala sobre a origem do nome Canola)

 

 

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(*) CANOLA – A planta que Deus não criou – artigo desse site

 


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