TORNANDO O LEITE (AINDA) MELHOR

José Luiz M Garcia,

Eng. Agr. M. Sc. Bioquímica

A ciência e a tecnologia de ponta para a produção de leite nos recomenda a utilização da raça Holstein (HPB) em instalações do tipo confinamento  e denominadas de “Free Stall”  com alimentação à base de silagem de milho e concentrados tais como caroço de algodão, polpa de laranja, farelo de soja, milho, etc... além de, é claro, suplementos minerais tão necessários a nutrição animal  já  que os solos, e conseqüentemente as plantas e alimentos  oriundas desses solos, não mais dispõem desses mesmos minerais,  e ,de preferência, com rebanhos acima de 100 animais.

É a versão tecnológica tupiniquim do “Get Big or Get Out” (Cresça ou Desapareça) na pecuária leiteira brasileira aprendida com nossos irmãos do hemisfério norte que nos impingiram  genética,  manejo e  alimentação desenvolvidos por quem usufrui u de décadas de gordos subsídios o que, evidentemente, não é o nosso caso, muito pelo contrário.

Dizem os nossos técnicos, acotovelados nas Universidades, Centros de Pesquisa e até em empresas de consultoria técnica, que essa “receita” nos  garantiria o maior retorno financeiro por “ Unidade Animal” , que é como eles  se referem  as vacas leiteiras,  mães zelosas da raça humana ao permitirem  que os homens pudessem evoluir culturalmente  tirando-lhes  grande  parte do árduo trabalho diário de obter alimento para o seu sustento, e que, por isso mesmo merecem  ser tratadas com todo o nosso respeito.

Como em toda atividade humana regulada pelo mercado, o lucro financeiro é o que dita as regras. Se gerar lucro é bom e se não gerar não é, diz a ótica mercantilista. Essa visão de mercado, geralmente míope, não leva em consideração  todas as variáveis  envolvidas no processo produtivo priorizando única e exclusivamente o lucro financeiro em detrimento de vários outros fatores como valor nutricional dos alimentos, saúde do rebanho, longevidade reduzida dos animais, níveis de poluição gerados, balanço energético  negativo entre outros.

O caso da produção de leite é emblemático para  ilustrar como as atividades biológicas não devem ser geridas somente por critérios única e exclusivamente financeiros.

O leite à pasto dizem os “entendidos” não é viável  e, segundo ainda algumas autoridades, colocaria até em risco o fornecimento de alimentos causando o desabastecimento e levando a humanidade a inanição. Como sempre, apela-se para o medo e o terrorismo sempre que se procura fazer valer algum ponto de vista, método amplamente usado pelo governo e autoridades para obrigar a vacinação compulsória sem que existam, à vezes, motivos genuínos para tal, para aprovarem esse ou aquele imposto sem que existam motivos reais para tanto, etc... num processo que eu denominei  de “Fobiocracia” que é o governo pelo emprego do medo. Aumentam-se taxas de juro a níveis estratosféricos por medo (injustificado) da inflação e assim por diante sempre instilando o medo ou acenando com alguma possibilidade nefasta.

Ocorre que técnicos conscientes, como o Dr Leovegildo de Matos da EMBRAPA Gado de Leite, nos apresentam um panorama exatamente oposto, ou seja, é possível  sim produzir-se Leite à Pasto de forma rentável  respeitando-se a fisiologia e a dignidade animal, por permitirem as vacas um maior número de lactações e com menor incidência de doenças, respeitando-se a ecologia  com menor poluição ao meio ambiente,  respeitando as reservas energéticas com melhor balanço energético, e agora, de acordo com os  resultados de inúmeras pesquisas  médicas, respeitando a saúde e o bem estar do consumidor com um produto de maior valor nutricional. E o que é melhor, poderá ser produzido não em poucas Fazendas-Fábrica, mas sim pela Agricultura Familiar em centenas ou milhares de pequenas propriedades por esse Brasil à fora (1)

O resultado das pesquisas médicas  colocaria o Leite de Vacas Saudáveis e Satisfeitas que tenham a possibilidade de se alimentar preferencialmente de pasto , feno e silagem  de capins,  na condição de um verdadeiro e natural nutracêutico e não mais de um simples alimento “commodity”.   A indústria de alimentos quer nos fazer crer que os nutracêuticos são uma invenção e propriedade única e exclusivamente delas ( Entende-se por nutracêuticos alimentos que sejam funcionais ou que tenham a capacidade de beneficiar de alguma forma a saúde das pessoas) mas esse definitivamente não é o caso.

O  fato é que se todos os alimentos fossem de fato produzidos conforme as leis da Biologia e, por conseguinte, da Natureza,  seriam, com certeza  no mínimo funcionais e não apenas simples “commodities” ou alimentos vazios.

Pesquisas recentes nos dão conta que somente o leite de vacas à pasto possuem teores significativos de CLA ( Acido Linoléico Conjugado) e não o leite de vacas confinadas alimentadas a base de grãos conforme os ditames da tecnologia supostamente moderna.

 O CLA é uma gordura boa recentemente descoberta  que tem se demonstrado um poderoso agente anti-cancerígeno. Em estudos com animais o CLA demonstrou o seu efeito antitumoral em pequenas doses em todos os três estágios do câncer, isto é, 1) Iniciação, 2) Promoção e 3) Metástase. Vale lembrar que a maioria dos agentes anti-cancerígenos  conseguem  bloquear apenas uma das três etapas.  O CLA reduziu o crescimento de uma ampla gama de tumores incluindo cânceres de pele, mama, próstata e cólon. ( 2 )

Embora as pesquisas ainda estejam em fase inicial com humanos, as primeiras  notícias já são bastante animadoras e demonstram que resultados semelhantes são esperados com pessoas. Um levantamento recente demonstrou que as mulheres com a maior taxa de CLA nas suas dietas tiveram uma redução de 60% no risco de contrair câncer de mama.(3 )

Onde obter  níveis significativos de CLA ? Um grande número de pessoas toma uma forma sintética bastante difundida nas academias como forma de reduzir a gordura e construir massa muscular. Infelizmente, pesquisas também recentes nos dão conta que essa forma sintética pode apresentar  efeitos colaterais potencialmente sérios que incluem promoção da resistência a insulina, aumento dos níveis de glicose no sangue, fígado aumentado e redução do colesterol HDL considerado bom.(4 ) A diferença básica entre a forma sintética está na configuração química da molécula sendo a natural a cis9, trans11 ou “ácido rumenico” e a sintética a  trans10, cis12. Uma vez mais a natureza provou ser mais sábia que os homens. Não é a primeira vez e nem será a última que uma versão natural provou ser superior a forma sintética.                     

E mais que isso, alguns trabalhos também demonstraram ser a perda de peso provocada pelo CLA sintético insignificante em seres humanos.

A forma mais segura de se consumir  o CLA é por meio de produtos naturais e essa forma natural de CLA ( c9, t11 = acido rumenico) não  tem efeitos colaterais nenhum.  Os alimentos que mais o contém seriam as carnes de animais que se alimentam de capim (pasto) e leite e derivados de vacas que se alimentem também de capim. Mais precisamente as gorduras animais como, por exemplo,  a manteiga . Pesquisas realizadas desde 1999 demonstram que animais que pastoreiam  possuem de 3 a 5 vezes mais CLA do que animais alimentados em confinamento recebendo grãos como base de sua dieta.(5 )

À nível molecular o CLA lembra outro acido graxo conhecido por “acido linoleico” ou LA. Ambos possuem 18 átomos de carbono e duas duplas ligações que mantém a cadeia unida. A diferença entre eles é sutil, assim como a Natureza.  Refere-se a colocação dessas duplas ligações. Essa diferença aparentemente pequena faz com que tenham efeitos diametralmente opostos no corpo humano. Enquanto o CLA inibe a formação de tumores o LA promove a formação de tumores. Existem 28 isômeros (tipos) de CLA na natureza, mas o mais comum encontrado na carne o no leite é o ácido rumenico.

Como diria o saudoso colunista Ibrahim Sued : “ Sorry Periferia”,  mas apenas o Leite à Pasto se qualificaria como produto  a ser consumido por todos aqueles realmente interessados em consumirem  alimentos que possam ter um impacto significativo na sua saúde e que transcendam ao simples rótulo de “Convencional” ( podendo ter contaminantes químicos)  e  “Orgânico” (supostamente isentos de contaminantes químicos) hoje tanto em moda. 

Além do CLA, o leite à pasto demonstrou igualmente ser mais rico em Vitamina E  tendo até 86% mais vitamina E do que o leite de vacas que comem uma dieta padrão preconizada pelo status-quo acadêmico-científico (6).  O Leite de vacas que comem capim possui  também teores mais elevados de Beta-Caroteno ( Pro vitamina A ) e Ômega -3.(7 )

Dessa forma, o leite à pasto de vacas Jerseys  ou Guernseys  , devido a predominância  do Leite A2 hipo alergênico (http://www.enxaqueca.com.br/blog/?p=102)  é o que esperamos ver no mercado no futuro preferencialmente sanitizados ( potabilizados) pelo processo de Micro-Filtração desenvolvido pelo  ITAL- Instituto de Tecnologia de Alimentos de Campinas (8), que  potabiliza o leite e preserva todas as suas qualidades nutricionais originais protegendo todas as vitaminas, enzimas e imuno-globulinas destruídas pelo arcaico e universal processo de pasteurização.

Literatura Citada

1.      Matos, L.L. (2007) “ Produção de Leite a Pasto”, In: Bridi,A.M. et al.. A Zootecnia frente a Novos Desafios. Londrina, UEL, 2007, 572p.

2.      Ip, C., J.A. Scimeca, et al.  (1994) “ Conjugated Linoleic  Acid. A Powerfull anticarcinogen from animal fat sources”. CANCER, 74 (3 Supplem):1050-1054.

3.      Aro, A., S. Manisto, I.Salminen,et al. (2000) “ Inverse  Association between Dietary and Serum Conjugated Linoleic Acid and Risk of Breast Cancer in Postmenopausal Women.           NUTRITION and CANCER, 38 (2):151-157.

4.      Riserus, U., P. Amer, et al. (2002) “ Treatment with dietary trans 10 cis 12 conjugated linolei acid causes  isomer-specific insulin resistance in obese men with the metabolic syndrome. DIABETES CARE, 25(9): 1516-1521.

5.      Dhiman, T.R., G.R. Anand, et al.(1999) “ Conjugated Linoleic Acid content of Milk from cows fed different diets”.J DAIRY SCI, 82(10):2146-2156.

6.      Leiber, F., M. Kreuzer, et al.(2005) LIPIDS, 40(2): 191-202.

7.      Hauswirth, C.B., M.R.Scheeder and J.H. Beer. (2004) “ High Omega-3 Fatty Acid content in Alpine Cheeses: The basis for an Alpine Paradox. CIRCULATION ,109(1):103-107.

8.      Microfiltração do Leite é Viável (2008) Revista Balde Branco, 523: 82-84, maio, 2008.