
Uma década de uso dos hormônios bioidênticos
dr. José Carlos Brasil Peixoto
Há cerca de 10 anos comecei a experiência do emprego dos hormônios bioidênticos, inicialmente, apenas com a pretensão de alivio de alguns sintomas da menopausa. Em um primeiro momento, como ocorre com inúmeras técnicas terapêuticas, o emprego parecia ser um mero aumento do leque das opções para mulheres com sintomas de climatério.
Mas, com o passar do tempo, isso foi se modificando de forma radical.
Em 2001 vem a público os primeiros indicadores dos riscos dos tratamentos hormonais. Embora já fosse altamente suspeito, a partir de então não haveria mais dúvidas de que haveria algo muito errado com o uso de medicamentos relativamente populares como Premarin® e Farlutal® e seus congêneres. A princípio parecia haver um perverso dilema, o alivio de sofrimentos indiscutíveis poderia ter como custo complicações demasiadamente graves como: câncer, derrame, infarto ou doença trombo-embólica.
A situação parecia ser a seguinte: a reposição de hormônios faltantes, típica situação da menopausa, não seria a solução para os sintomas resultados da sua falta. Estranho, muito estranho...
Para elucidar isso foi necessário entender, com precisão máxima todas essas questões.
O que é reposição?
Provavelmente havia algo errado com a percepção do processo e, portanto, de suas soluções. Claro, que qualquer pessoa sabe que “repor” é colocar o que falta. Dando atenção maior a questão hormonal, principalmente aos estudos dos disruptores hormonais vem a tona um ponto super importante: receptores de hormônios esteróides podem ser mobilizados por substâncias semelhantes aos hormônios endógenos, mas mesmo com essa semelhança, seriam suas diferenças que poderiam resultar em algum tipo de dano ao organismo. Isso foi cabalmente demonstrado pelos estudos da Drª Ana Soto, em sua acidental descoberta de que substâncias liberadas pelo plástico (a tampinha do tubo de ensaio, no caso), que se comportavam como estrogênio, e estimulariam a multiplicação de células de câncer de mama.
Mas tarde foi identificado um incontável grupo de substâncias químicas (e mesmo naturais) com ação hormonal, a maioria se comportando como hormônio feminizante. De modo mais geral fica estabelecido que tudo que for parecido, ou muito parecido, mas que não é o próprio hormônio é um disruptor.
Essa noção é muito importante, ser parecido não basta: tem ser idêntico!
Dessa forma, um paciente poderia perguntar ao seu profissional de saúde, considerando a premissa da reposição (colocar de volta o que falta) se a substância que está sendo prescrita é possível de ser mensurada no corpo humano. Por exemplo, se o medicamento é à base de tibolona (Livial®, por exemplo), seria essa substância pertencente ao plantel hormonal do corpo humano. Pode ser medida em algum exame laboratorial? Isso vale para quaisquer outras. O raciocínio a seguir é óbvio: se não é do organismo porque usar? Se forem usadas coisas extravagantes às demandas da fisiologia, ficar doente poderia ser uma decorrência relativamente pouco surpreendente. (Alguém diria que não?)
Mas haveria ainda outro aspecto: qual é o hormônio que precisa ser reposto. Embora possa parecer ultrajante, essa pergunta é fundamental. O ultraje em questão parte da prática, mais do que usual de serem prescritos estrogênios como os hormônios para tratamento da menopausa sintomática. Trata-se da pedra basal dessas terapias, fortemente lastreadas nos pressupostos de Robert Wilson e seu famoso livro “Feminine forever”. Cometendo os mesmos equívocos arrogantes da revolução química, que inundou o planeta com venenos bem intencionados, o dr. Wilson centrou seu foco na ação obvia: o estrogênio tem atuação feminizante. Mas o climatério sintomático é muito mais do que a falta de estrogênio. E, considerando que, mulheres com uma razoável massa física adiposa (que vem se agravando com o estimulado aumento de consumo de carboidratos) dificilmente tem uma substancial falta de estrogênio, restará evidente a falta de plena compreensão do que se passa em termos de alteração fisiológica nessa etapa da vida.
O dr. John R Lee veio a oferecer mais luzes. Baseando-se em fisiologia essencial, temos um conceito que, embora muitos tomem como mitológico por ignorância de rudimentares conhecimentos de biologia será o pilar de uma terapia de equilíbrio hormonal. Só é possível tratar um quadro que envolva hormônios esteróides dentro da perspectiva de esses hormônios – obrigatoriamente – funcionam em rede. Não há chance de se fazer uma terapia qualificada sem conhecer as taxas de diversos hormônios que se harmonizam. Ou seja, não basta saber que um determinado hormônio está baixo, pois o outro também pode estar ainda mais baixo. E esse outro é o seu antagonista. Profissionais de boa vontade que não levam isso em questão podem acabar perdendo o mais importante referencial para tentar elaborar um esquema terapêutico realmente perspicaz: quocientes hormonais. Duas razões matemáticas são de especial importância, a relação entre estradiol e progesterona (E2/P4) e a relação entre estradiol e testosterona (E2/T). Outras relações que dão muitas informações são aquelas entre DHEA e cortisol (DHEA/C1), indicador de neuro-proteção, por exemplo, e relação entre testosterona e cortisol (T/C1), que indica catabolismo ou anabolismo.
Ou seja, quaisquer tratamentos que envolvam hormônios esteróides e que não considere tais informações podem prejudicar o paciente. Não há exceções nesse quesito, por mais pretensamente habilitado que seja o prescritor.
Porém ainda há outro item a ser considerado: qual o melhor método de se chegar às taxas de hormônios esteróides livres. Esteróides, hormônios derivados do colesterol, não têm afinidade com a água, pela sua explícita natureza lipofílica. Mas está cabalmente documentado que a saliva pode oferecer essa precisa informação. A dosagem de esteróides livre – necessariamente – será coletada pela saliva. Esse é o exame laboratorial que completa o cenário propedêutico.
Pronto: as prerrogativas estão estabelecidas.
O êxito da terapêutica
O ícone da terapêutica bioidêntica é o creme (sem parabenos) de progesterona. Foi o medicamento símbolo de uma revolução “underground”. Hoje temos disponível praticamente todos os esteróides “iso moleculares” (outro termo sinônimo para “bio idênticos”, levando em conta que o adjetivo “natural” é absolutamente imperfeito e desnecessário, nem tudo que é natural é bom, e a promíscua febre desse adjetivo no marketing atual chega a ser ofensiva a nossa inteligência), sob a forma de gel ou cremes trans-dérmicos ou gotas e pastilhas para uso sub linguais. O uso oral tradicional nunca é indicado no exercício clínico habitual, sendo reservado à excepcionalidade das metrorragias graves, por exemplo.
A escola do dr. Lee deixou como importante legado a busca das menores doses eficientes, comprovadas pelo controle de esteróides salivares livres. A progesterona é onipresente em doses standards próximas a 20 mg para mulheres e ao redor de 6 mg para os homens. Discretíssimas dosagens de testosterona são excepcionalmente marcantes para a maioria da clientela feminina. O estriol pode ser muito útil também. Para homens, dosagens cautelosas da testosterona são excepcionalmente bem indicadas, a próstata e o coração serão muito gratos. A pregnenolona, e mais raramente o estradiol também poderão ser utilizados.
Muitos suplementos sejam vitaminas, sais minerais, aminoácidos, e fitoterápicos, principalmente os que atuam nos processos enzimáticos da via esteróide, são amplamente recomendados. Todas as instâncias fisiológicas paralelas têm que estar sob averiguação. A tireóide, o pâncreas, o sistema nervoso e o equipamento imunológico, tudo e todo o resto tem que ser considerado
Esse mix terapêutico tem grande eficiência, com uma virtual ausência de efeitos co-laterais relevantes.
Em dez anos de emprego contínuo, com mais de dois mil pacientes tratados ou em tratamento, o pior efeito co-lateral é alcançar bons efeitos terapêuticos após algum tempo de tratamento.
Nesse tempo pode-se observar que o mundo real, a vida das pessoas, o sofrimento, a superação, os reencontros e as separações, as decepções e as novas paixões são substanciais ingredientes na mudança da forma como cada pessoa reage ao tratamento hormonal. O profissional que não levar isso em conta está fadado à desumanidade – óbvia – sob forma do insucesso.
O tratamento hormonal é uma das mais consistentes confirmações de uma retórica que poucas vezes é levada ao pé da letra: o organismo só pode ser tratado levando em conta o todo. No caso de hormônios isso é um fundamento da observação clínica. A progesterona pode ser o principal item, ou o adjuvante mais importante para inúmeros quadros comuns de consultório – imprescindível na síndrome da menopausa sintomática; importantíssima para miomas, endometriose, ovários policísticos, doenças mamárias, sintomas do pré-menstrual, problemas de próstata, e na síndrome da sucessão de crises adaptativas (estresse – crônico ou agudo) que podem ser percebidos como quadros psiquiátricos. O dr John Lee advogava que a única prevenção para o câncer de mama e de próstata passa pelo sábio uso desse hormônio.
Próximos passos
Quando comecei a usar o primordial creme de progesterona não tinha como imaginar o tipo de terapêutica que estava se iniciando.
Ao estudarmos um campo prático da medicina de grande interesse atual, as terapias anti-envelhecimento (anti-aging therapy) nos deparamos com uma assertiva muito persuasiva: qualquer tratamento que vise preservar a saúde, a vitalidade para terceira idade não pode prescindir do emprego correto dos esteróides bioidênticos. Eles constituem atualmente o núcleo desse tipo de corrente terapêutica.
O século XXI será marcado por uma forma revolucionariamente simples para tornar pessoas com mais de 60 anos preservadas em energia, capacidade orgânica e intelectual: o emprego de sábias doses de hormônios derivados do colesterol. Os esteróides trans-dérmicos e sublinguais já se constituem na mais paradoxal das estratégias médicas um dia imaginadas, óbvia como o ovo de Colombo, poderosa como as leis mais ordinárias da natureza.
Tive a sorte de conhecê-la e empregá-la há dez anos. Dez anos muito gratificantes, e com certeza, muito mais para as pessoas que dele se utilizaram.
Gratidão obrigatória a genialidade do médico John R. Lee.
Referências bibliográficas:
What Your Doctor May Not Tell You About Premenopause: Balance Your Hormones and Your Life From Thirty to Fifty- de John Lee, Virginia Hopkins and Jesse Hanley, Ed. Warner Wellness, NY.
Obs.:
1) Site oficial: johnleemd.com
2) DHEA não está liberado para uso no Brasil como medicamento;
3) As doses de uso de todos os esteróides bioidênticos dependem da sintomatologia e avaliação laboratorial;
4) Não use tais substâncias sem auxilio profissional.
José Carlos Brasil Peixoto – Set/2010