
A DIETA DOS GORILAS, E DAÍ?
Como poderia a alimentação dos gorilas informar algo
a respeito de uma dieta
saudável para os humanos
Autor: H Leon Abrams Jr
Tradução: José Carlos B. Peixoto
Um dos argumentos proferidos pelos vegetarianos seria que os nossos ancestrais
primatas eram vegetarianos, assim, para ser saudável, deveríamos nos submeter a
esse mesmo tipo de dieta.
Um artigo intitulado "A dieta do gorila das planícies ocidentais tem implicações
para a saúde dos Seres humanos e outros hominídeos", que apareceu em uma edição
recente da Human and Clinical Nutirtion, postula este argumento. Com
referência ao estudo dos autores sobre a dieta vegetariana dos gorilas, a
pesquisa é razoável, mas afirmar que para os seres humanos seria melhor aderir
uma dieta vegetariana como a dos gorilas é espúrio e equivocado.
Um equívoco sobre a dieta dos gorilas é de que ela não contém nenhum produto de
origem animal. Pelo contrário, todos os grupos dos grandes primatas ingerem
alguma proteína animal, ou de forma direta ou inadvertidamente, pelo consumo de
insetos, ovos de insetos e larvas que nidificam nas plantas e frutas que
comem. Em seu trabalho pioneiro sobre os chimpanzés, Jane Goodall descobriu,
para sua surpresa, e para o espanto do resto do mundo, que os chimpanzés matam e
comem outros macacos para fazer uma ferramenta para extrair cupins de seus
montes (as moradia de cupins), e que eles fazem um esforço considerável para a
obtenção desses alimentos. É também significativo que a carne é o único alimento
que partilham com outros chimpanzés.
Todos os macacos, lêmures e outros símios são classificados como vegetarianos e
/ ou frutívoros, mas na verdade consomem uma pequena quantidade de proteína
animal ao comer pequenos insetos e, seus ovos e larvas nos vegetais alimentares
que eles selecionam para comer. O Zoológico Nacional em Washington tentou nutrir
uma raça quase extinta de um sagui dourado frutívoro da América do Sul em
cativeiro, sem resultado, mas quando foi adicionado um pouco de proteína animal
à sua dieta, eles começaram a procriar, o que provaria que eles requerem uma
pequena quantidade de proteína animal para serem saudáveis e se reproduzirem.
Com exceção dos humanos, o habitat natural de todos os primatas é nos
trópicos. Por outro lado, há milhares de anos, os seres humanos têm habitado
todas as partes da terra do mundo, exceto na Antarctica. Os primeiros seres
humanos, o Australopithicines, há cerca de 2 milhões de anos atrás, eram
onívoros.
Recentemente, alguns pesquisadores, ao examinar seus dentes fósseis, teriam
sugerido que esses Australopithicines eram vegetarianos, mas a evidência indica
que eles eram onívoros. É
bastante claro
que através dos tempos os "humanos" evoluíram, a partir do Homo erectus até
o que hoje é considerado seres humanos "Modernos", como os Cro-Magnon: os seres
humanos foram basicamente comedores de carne. Conforme J. Brownoski, (The Ascent
of Man), foi o consumo de carne, que levou ao surgimento do homem moderno. O
Homo erectus inventou ferramentas de pedra para a grande disputa da caça
o que levou à invenção de ferramentas de pedra mais avançadas desde os
Cro-Magnon aos humanos modernos.
Foi a busca de carne que levou Homo sapiens para colonizar o mundo. Eles
seguiram os rebanhos dos animais. Quando a superpopulação fez com que o
abastecimento de alimentos de animais diminuísse, muitos se mudaram, da África
tropical para o Norte da África, Ásia, Europa, Américas e Austrália. Eles
caminharam e se adaptaram aos climas frios e foram capazes de fazê-lo porque a
carne é energia compacta, e o abate de mamute ou outra grande presa poderia
alimentar muitas pessoas por um longo período de tempo; de outro lado a coleta
de plantas e frutas comestíveis era sazonal. Até
o início do século 20,
haviam povos inteiros que viviam quase exclusivamente de alimentos de origem
animal. Por exemplo, os esquimós da América do Norte e os lapões da Escandinávia
viviam inteiramente de proteína animal e eram muito saudáveis.
No entanto, quando nos referimos à carne, lembre-se que a carne agrega gorduras
que são necessárias para boa saúde. A proteína e os minerais da carne não podem
ser utilizados sem os nutrientes da gordura. Tanto Steffanson como Brody, que
passaram um tempo com os esquimós e os índios da América da Norte, informaram
que essas pessoas guardavam a gordura dos animais de caça e sempre comiam sua
carne com gordura.
Os esquimós comiam carne crua, o que é muito saudável, mas há uma ressalva para
a sociedade moderna: carne fresca frequentemente contém bactérias e parasitas
que podem causar doenças e até a morte, por isso é recomendado pelo governo que
toda a carne deva ser bem cozida - o suficiente para eliminar todos esses
problemas.
Os seres humanos só se voltaram para alimentos de origem vegetal como fonte de
alimento importante, quando, devido à crescente população humana, os rebanhos de
animais tornaram-se escassos. Eles aprenderam a domesticar alguns animais e
inventaram a agricultura.
Os seres humanos aprenderam a usar o fogo, para qualquer uso, na era
paleolítica. Cozinhar certamente foi necessário, porque grãos não podem ser
comidos crus. Também é interessante notar que quando os seres humanos começaram
a comer uma dieta rica em grãos, a incidência de cárie dentária aumentou
consideravelmente. Mas a deterioração dentária aumentou dramaticamente quando
os grãos refinados (trigo e arroz) tornaram-se a base das dietas de
grande percentagem da população pelo mundo.
Para o crescimento normal e boa saúde ao longo da vida, a espécie humana requer
oito amino ácidos que seu organismo não pode fabricar, além da vitamina B 12 e
alguns minerais essenciais. A única fonte viável desses aminoácidos e de
vitamina B 12 é a proteína animal, como a carne vermelha, peixe, mariscos, ovos,
leite, insetos e vermes. A falta desses aminoácidos resulta em graves
doenças. Por exemplo, kwashiorkor é uma doença por deficiência que impede o
desenvolvimento normal de células cerebrais vitais e retarda o crescimento. As
pessoas podem estar recebendo tudo que eles precisam comer para satisfazer sua
fome de grãos e outros alimentos vegetais. Elas podem até mesmo tornarem-se
gordas com uma dieta de grãos, mas o seu crescimento e desenvolvimento normal é
retardado. Por exemplo, alguns grupos de indígenas Maya camponeses da Guatemala
têm basicamente somente milho, feijão e abóbora para comer. Eles gostam de
carne, mas são pobres demais para comprar carnes ou criar animais. A alimentação
dos animais domesticados sacrificaria terra necessária para produzir os grãos
que permitem sua subsistência. Esta condição é comum sobre grande parte do
mundo.
Ao contrário dos humanos, o trato digestivo dos gorilas está equipado para
fabricar os aminoácidos essenciais e outros nutrientes vitais. O sistema
digestivo humano não é tão equipado e deve confiar
nas proteínas animais.
É interessante notar que os defensores das dietas vegetarianas que usam a dieta
de macacos como um modelo racional para apoiar essa escolha de alimentação -
afirmando que a dieta do macaco é mais "natural" - não defendem comer uma
alimentos vegetais no estado bruto - como os macacos fazem. Os
alimentos básicos de
origem vegetal que os seres humanos comem deve ser cozidos. Defensores
da fé vegan também dizem que através da combinação de grãos com as leguminosas,
pode-se obter o
aminoácidos essenciais. Embora isto possa ser teoricamente possível, na prática
não é viável (ou extremamente difícil ou impossível de se realizar),
especialmente se uma saúde robusta deve ser alcançado e mantida geração após
geração. É claro que, devido à tecnologia moderna, muitos dos nutrientes
essenciais podem ser fornecidos por produtos sintéticos ou transformados, mas
isso apenas imita o que tem, naturalmente, na proteína animal e muitas vezes são
extraídas a partir delas. Para estar no lado seguro, é sábio para obter os
nutrientes essenciais de sua melhor fonte - proteína animal.
Antropólogos têm se questionado por que certos alimentos passaram a ser proibido
por algumas religiões. O antropólogo, Dr. Marvin Harris, em seus dois livros
extremamente lúcidos, informativos e agradáveis, “Cannibals e Reis” e “Vacas,
porcos, guerras e bruxas”, mostra que a proibição de suínos (porco) pela
religião judaica e vacas pela religião hindu surgiu devido a uma pressão cada
vez maior do crescimento populacional.
Porcos comem grãos. São necessários muitos lotes de terra para cultivar grãos de
trigo, que poderiam alimentar mais seres humanos do que se usar poderia
alimentar porcos que exigem grãos para se tornar carne na mesa de jantar para
humanos. Então o trigo entraria em concorrência com os porcos e o trigo venceu
os porcos, quando o arbítrio humano decidiu que o trigo seria mais eficiente
para alimentar uma população crescente. Assim, a carne de porco não valeria a
pena sobre o grão e foi proibida por líderes religiosos como uma estratégia para
alimentar a população de forma mais fácil.
Da mesma forma, na Índia, onde a carne foi largamente consumida em um momento
anterior de sua história, mas a religião hindu proibiu porque a vaca se tornou
mais valiosa por seu leite e pelo esterco do que como carne comestível. O leite
da vaca proveria a proteína animal e o esterco forneceria combustível para o
fogo que cozinharia alimentos. Sanções religiosas se transformam em uma força
muito poderosa para o controle social. (Nos livros de Harris, apenas algumas
páginas são dedicadas a este assunto, mas os livros são altamente recomendados
para a obtenção de uma profunda
visão sobre o comportamento humano)
Em sociedades economicamente diferentes, onde a proteína animal é escassa entre
as classes mais pobre, e mais abundante nos setores crescentemente mais
abastados dessas mesmas sociedades, é interessante notar a diferenças da altura
corporal que parece refletir a forma como as pessoas são forçadas a comer. Esses
setores menos abastados subsistem principalmente de grãos e alguns vegetais e
perdem em altura quando comparados com as classes dominantes mais
abastados. Esta situação pode se desenvolver como resultado de superpopulação
porque quando muitos seres humanos habitam uma determinada região isso pode
esgotar a capacidade da terra onde o alimento é produzido.
Os antigos maias do Período Clássico usou a estratégia de corte e queima para
criar mais terras aráveis na medida que sua população invadia a floresta
circundante. A fim de criar campos para cultivar milho, abóbora, feijão e
chili peppers, a floresta foi
desmatada pelo destrutivo método de cortar árvores e queimar o entulho. Esta é
uma estratégia muito brutal dentro de um ecossistema frágil, e que rapidamente
esgota o solo. A dieta maia consistia principalmente dos vegetais que
cultivavam, alguns frutos e caça. Mas esse modelo tornou-se escasso na medida
que a floresta foi desmatada para a
terra agrícola e só a classe dominante tinha acesso a reduzida proteína
animal. (Eles tinham peru e cães domésticos, mas estes animais comiam a mesma
comida dos seres humanos.) Esta situação ecologicamente instável levou ao
colapso da civilização maia clássica, quando eles abandonaram suas grandes
cidades. O importante para este artigo é que os esqueletos desenterrados em
sítios maias revelam que a classe dominante era mais alta do
que as massas. A nobreza complementava
sua
dieta básica de milho, feijão e abóbora com o que estava disponível de proteína
animal, que as
massas populares praticamente não tinham.
Então, o que pode a dieta dos gorilas nos dizer sobre o que constitui uma dieta
saudável para os seres humanos? Pouco,
se informar algo. Os seres humanos são onívoros e precisam de proteína animal,
bem como alimentos de origem vegetal para manter boa saúde. O autor deste artigo
e o dr. Melvin E. Page, conforme apresentado em seu livro, “Seu corpo é seu
melhor médico”, recomendam o seguinte: para uma boa dieta ajudar a manter
ótima saúde: Comer uma variedade de proteínas e gorduras de animais frescos, uma
grande variedade de legumes frescos, frutas e nozes e grãos inteiros pães e
cereais.
Para uma bibliografia completa sobre este assunto, consulte "A Relevância do
Paleolítico na Dieta Determinar Contemporânea Necessidades Nutricionais ", Leon
H. Abrams, Jr. The Journal of Applied Nutrição. Vol. 31, números 1 e 2.
("The
Relevance of Paleolithic Diet in Determining Contemporary Nutritional Needs," H.
Leon Abrams, Jr. The Journal of Applied Nutrition. Vol. 31, Numbers 1 and
2.)
Nota do Editor: Muitos
profissionais ainda recomendam o uso de carne crua para sua saúde de construção
de propriedades, recomendando um tratamento cuidadoso e com fatores de proteção
nesse alimento - o que pode minimizar a riscos de infecção parasitária e
microbiológica.
Leon H. Abrams é professor emérito de antropologia da Universidade de Geórgia –
EUA.
Este artigo apareceu em Tradições Wise
em Alimentação, Agricultura e Artes de Cura, o trimestral
revista da A. Weston Price Foundation, Verão
2000
Texto da seção: “As dietas
tradicionais” - Fundação Weston A Price